sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conjugação diarréica

Fezes minhas as suas palavras
Fezes suas as minhas palavras
Fezes nossas as nossas palavras
Fezes minhas as minhas palavras.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Carta a uma confusão

Querida,

Eu tenho tanta coisa pra dizer, mas eu não quero. Você não sabe de nada, você só supõe e acredita nisso. Vê se me esquece. Esquece tudo o que você acha que é, que sou, os significados trágico de todas as nossas insignificâncias. Lembre apenas de mim. Não fale mais sobre o que é o amor, você já até acabou se confundindo, percebeu? Não dá mais pra dizer das coisas que eu deixei nas minhas caixas empoeiradas ou que pensa que ainda nem tirei daqui de dentro. Suas fugas rápidas são tão ligadas ao passado quanto acha que são as minhas. Parece rancoroso, mas eu sabia que você era assim, só acho que não precisa mais disso. Quem sou eu? Vá, sim. Se esqueça disso tudo, esqueça que algum dia tivemos algo a dizer. Realmente, pare. Desista de tentar entender meu silêncio. Volte para aqueles braços, você pode até escolher. É uma pena. Eu não tenho mais nada a ver com isso. Só não deixo de sentir. Não ando fazendo muito esforço. Preciso, viu? Vá viajar, vá rever, vá passar uns dias. Deixe a mudinha de ódio pra traz, deixe isso morrer, por favor. Vou tentar não atrapalhar, eu juro. Só não pense que vou me esquecer ou que esqueci, ou que eu não sei do que estou falando. Como tudo isso parece tão óbvio! Até discutimos por causa de nossos deslizes do passado uma vez. Quer dizer, meu deslize. O que ainda tem aí... não faço idéia. Aproveite. Só não venha me contar. Eu já ando sabendo demais e o que eu quero mesmo é nem saber. Só espero que o Dylan esteja certo. “The answer, my friend, is blowin' in the wind”. E se estiver ao vento eu sei que ela chegará aqui primeiro. “The answer is blowin' in the wind”. Não sei por que. É em tempo assim que não acho um nome pra você. Ah, graças a algum deus, eu me sinto louco!

Com sentimentos antagônicos,

Eu.

P.S.: Eu sempre terei coisas pra dizer. Você não vai ouvir.

Pénu

Hoje me vi de pés descalços no escuro. Era a raiz de um arrepio. Tão estranho ver os próprios pés assim, minha própria pele e só, alguns pelos esparsos e nada mais. Pra mim foi simbolo, mas de tanta coisa que por aqui me perco, difícil de explicar - nem isso - de dizer. Mas é que deu saudade de um par. Da escalada de outros dedos, da pequena guerra entre dedões que poderiam se dizer os generais a conquistar um território vasto - o pé inteiro. De deixar hora o pé em cima, hora o pé embaixo, sempre de outro pé que não é o meu. A que pé chegamos. Que pé é esse que me deixa todo bobo, encabulado comigo mesmo, com vontade de gritar, de escrever tolices sobre pés. Ah, que pé.

Não se zangue

Meu amor, "fala baixo senão eu grito". E esse grito poderia ser sua última indesejada surpresa. Ele pode os seus ouvidos ensurdecer para o som da minha voz. Meu amor, não peça explicação. O meu amor é em conta-gotas. Se em contato com seus olhos te lava a alma em abundância. Não tem prazo de validade, vale para qualquer espírito não perecível. Ele é despertador, meu amor, já não precisa mais dormir se o que você precisa de verdade é sonhar. Meu amor, não se zangue. Mas meu amor não é como o seu.
Meu amor,
não te fiz uma canção.
Sem ritmo,
nem aqui acerto a pontuação.
Não tem rima ou verso,
cadência ou harmonia.
Nosso amor não é
levada ou poesia.
Meu amor, é travessão —
Meu amor, te convido. Vem comigo conhecer tudo o que esse amor me deu. Só tome cuidado pra não cair em erro, pensar que é algo teu. Meu amor, sem essa de meu.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Meu amor,
não te fiz uma canção.
Sem ritmo,
nem aqui acerto a pontuação.
Não tem rima ou verso,
cadência ou harmonia.
Nosso amor não é
levada ou poesia.
Meu amor, é travessão —

domingo, 26 de junho de 2011

Movimento I - único

Ando afim

de correr atrás

duma pequena libertação

de ideias antiliberais

Tem gente aí

sem rumo e paz

que traz em si

tudo o que é capaz

Penso em mim

em pedalar

deixar fluir

meu retorno ao lar

Lar?

Paz?

Atrás?


Regurgitofagiei...ei; ei

sábado, 28 de maio de 2011

Devaneios de um Motorista qualquer

“Dá logo a partida. Bota essa chave no contato, sente o motor roncar”, penso. Seguro a maldita chave enquanto olho pra estrada. Essa estrada que parece que não acaba nunca. Talvez não acabe mesmo. Quando parece que vai acabar surge uma bifurcação, e sempre pego o caminho mais longo. Já perdi a noção de quando peguei esse carro. Agora acho que é mais meu do que do seu verdadeiro dono. “Enfia logo a porra da chave no contato, cara! Quanto mais pensa, mais demora. E lerdeza é algo que não combina contigo, chapa”. Tu sabe correr, tu sabe bem. É, provavelmente, a única coisa que sabe fazer direito mesmo. Corre desembestado, corre como se valesse a vida. Pisa no acelerador como se fosse a última coisa que fosse fazer nessa terra que não acaba nunca. Vale a vida mesmo? Vida. Ficar pensando na vida é pra quem tem tempo. Tempo e algo que dê valor a isso. “De que adianta ficar parado pensando na vida se só sei correr, se só isso ainda te faz sentir alguma coisa, maldito?”. Dou um gole no Bourbon, pra ver se surge alguma coragem nessa carcaça vazia. Dou outro. Que nem homem! Chega, vou fumar um cigarro.
“Não coloca nem a chave no contato, e ainda sai pra fumar. Você é ridículo”. Nem isso consigo fazer: fumar dentro do carro. Fumo faz tanto tempo, o cheiro não incomoda, mas não consigo fumar dentro do carro. Ela não gostava do cheiro, claro. Menina doida, por que ainda lembro dela? Ela e aqueles moleques malucos. Corriam feito o diabo, quase tanto quanto eu. Mas e daí que ela não gostava do cheiro, faz tanto tempo. Por onde ela anda? Talvez tenha amarrado seus burros em algum lugar. Ou em alguém. “Teve mais culhão que você! E ainda achou que ela ia ficar contigo… falando que ‘iam fugir pra algum lugar, que iam esquecer daquele racha estúpido’”. Patético, ela nunca fugiria comigo. Ela sabe do que foge, sonha pra onde corre, deseja o que procura. Pode até não achar, mas sabe muito melhor do que eu. “Você só sabe correr. Dá outro gole. Acende seu cigarro”. Só sei correr, não sei sentir. Corro, meu deus, corro. “Sai da porra do lugar, corre.”
*Coloca a chave na ignição, dá a partida*

Post do comparsa Caio de Freitas Paes, do HQ Subversiva