Quando entrou no ônibus não pôde acreditar no que viu. Logo ali no primeiro par de poltronas, atrás do motorista, ocupando ambos os lugares, adormecido como um justo, com a cabeça recostada sobre uma das mãos apoiada na janela, parecendo quase não respirar: um homem nu.
Nu, simplesmente, nu! Como assim? Não entendia como alguém poderia estar ali, deitado ali em plena luz do dia, trajado apenas pelas suas próprias células e pelos que não eram muitos com exceção das partes que convinham. Será que ninguém estava vendo aquilo, teria enlouquecido, adormecido, desmaiado? Não, era real. Estava ali, dentro de um ônibus olhando um homem nu. Será que ninguém mais estava vendo, ou será que ninguém mais se importava. Não posso ficar no mesmo lugar que ele, não é possível - falava para si.
Os segundos passavam e o coletivo não via obstáculos em seu caminho. Provavelmente, para não ter que pegar um atalho, o motorista aceleraria ao máximo para não chegar ao ponto final ainda mais atrasado. Valetas, lombadas, tartarugas, buracos e poças eram superados com violência pela máquina lotada, donde se ouvia resmungos e sentia-se o bafo quente de muitos corpos aproximados. A cada irregularidade da pista saltava-se mais os olhos para aquele corpo, que devido ao enorme relaxamento permitia os saltos das mais interessantes e ignoradas partes. De súbito, começa a surgir dentro de si um calor, mais intenso ainda do que o que vem dos demais passageiros. Não pode ser, por esse homem, nesse ônibus, com tantas pessoas podendo ver. Mas ninguém via, realmente, ninguém se importava.
O ônibus começava a se esvaziar. Descia um, dois, sete passageiros. Só resta o motorista e esse homem, meu ponto é o próximo. Pensou com certo alívio - não teria mais que se controlar, não teria mais que olhar, que sentir o que quer que fosse, nojo, repulsa, estranhamento, carinho, ternura. Enfim, é minha hora. A porta está aberta, vou. Ele ainda não acordou, pra onde será que vai?
Alcançou a calçada, caminhou sem parar, o sol estava a pino. Aos poucos se sentiu melhor, mais leve, até diminuir o passo. E ria, ria como uma criança, ria com prazer verdadeiro. Ria por conseguir pensar ter se esquecido do que sentiu durante viagem com o homem nu.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Sentidos
Acordei pleno. Cercado pela multidão que em parte se agitava para todos os lados e em outra se mantinha adormecida, exausta pelas vigílias profissionais ou pelos prazeres que acompanham a noite. Era necessário estar aqui. Mais do que nunca é necessário estar, ser, presenciar o que vai se passar. Deixar aflorar todos os sentidos. É ímpossível não ver tudo o que se revela sob a luz do sol. É imprescindível tocar e ser tocado profundamente no corpo e na alma, tocar tudo e todos com o corpo e com a alma. Sentir os cheiros espalhados no ar, do combústivel queimado, dos perfumes exagerados, do hálito dos bêbados sustentados pelas animadas paredes ou amparados pelas calçada, das refeições em seus horários sempre, mais ou menos, exatos, das flores onde que que estejam, nos campos, jardins, canteiros, nos homens e mulheres. Sentir o gosto da saliva, da pele, o doce que há em tudo, e do amargo que nos acompanha, nós querendo ou não. É importante escrever isso antes que o sentimento se despeça, em peça por peça e eu não mais sinta as vontades do que falo, não mais acredite na verdade, como as outras, temporária deste instante. É preciso, mais do que nunca, fazer o que peço, estar com os outros ser parte de um todo. Por que no fim só serei eu. Comigo e com todos o que restará é só o eu.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Mariano LV
A cama parecia desconfortável demais naquela noite - ora o colchão parecia muito endurecido, ora muito mole. De bruços, de costas, virado para a parede, para o restante do quarto; não havia posição que convencesse o sono a se deitar sobre a alma confusa. Uma tentativa era pensar e pensar, criar teias, soluções para alguns problemas do amanhã, tentar relembrar do que vale, ou não a pena, até, quem sabe, chegar a boa hora em que a cerveja é servida em pratos de porcelana produzidos pelo, quase aposentado, colega de trabalho que pediu uma caixa de fósforos, com cabeças azuis, ao paciente terminal, que sofria de catapora, que não encontrava sua moeda da sorte na carteira, pois fora engolida, sem perceber, ao beber um leite de magnésia batido com algas.
Neste momento talvez pudesse ter certeza que o sono viera. E que dali em diante já não teria mais que se preocupar em ser dono de si mesmo. O piloto-automático estava funcionando, a viagem seria longa. Porém, um vidro quebrado, um pedaço de madeira caiu no chão, algum ser humano corria lá fora.
Neste momento talvez pudesse ter certeza que o sono viera. E que dali em diante já não teria mais que se preocupar em ser dono de si mesmo. O piloto-automático estava funcionando, a viagem seria longa. Porém, um vidro quebrado, um pedaço de madeira caiu no chão, algum ser humano corria lá fora.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Não me sobra, me falta.
O raro momento de coragem me vem e com ele o tremendo êxtase de me sentir vivo novamente, talvez mais próximo de um sentido, nem que seja, realmente, só meu. Me sinto pronto, capaz, potente, entusiasmado; não há confusões, não existem duvidas, um constante ausência da necessidade do porque. "Agora vai!". Os medos se dissolveram, a vontade de cair é maior do que tudo, é a hora de partir sem pensar na volta.
Porém, alguns minutos, talvez algumas horas, uma madrugada depois, tudo está de volta, tudo volta a ser como já foi e parece que não deixará de ser assim jamais. Percebo que na verdade os medos só haviam repousado um pouco no fundo da alma, porque são pesados demais para serem sustentados a todo momento na superfície. "Não fui". Acreditei que a transformação era eterna - o mal da euforia -, acreditei que tenho todo o tempo do mundo para fazer aquilo pelo que tinha espera no resto do tempo, que já não me sobra, me falta [segurança].
Porém, alguns minutos, talvez algumas horas, uma madrugada depois, tudo está de volta, tudo volta a ser como já foi e parece que não deixará de ser assim jamais. Percebo que na verdade os medos só haviam repousado um pouco no fundo da alma, porque são pesados demais para serem sustentados a todo momento na superfície. "Não fui". Acreditei que a transformação era eterna - o mal da euforia -, acreditei que tenho todo o tempo do mundo para fazer aquilo pelo que tinha espera no resto do tempo, que já não me sobra, me falta [segurança].
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Além do nada e/ou O frio
Era um momento meu,
mas ele quis compartilhar.
Veio sem aviso e me tirou dali,
daquele instante sagrado.
Me levou ao inesperado,
onde eu mais espero.
Lembrei daquela estrela cadente, ou era cometa?
Ao consciente só restou o pedido.
À imaginação o realizar.
Ao corpo os espasmos.
Ao espírito o desencontro.
Ao sonho a emoção.
Injusto. Ele se foi assim.
Passou e abandonou,
além do nada me deu o frio.
Levou tudo,
como se tudo fosse leve como as flores.
Mas deixou as sementes
para que continuem brotando dolorosamente.
Que prazer. Cai em ventania.
mas ele quis compartilhar.
Veio sem aviso e me tirou dali,
daquele instante sagrado.
Me levou ao inesperado,
onde eu mais espero.
Lembrei daquela estrela cadente, ou era cometa?
Ao consciente só restou o pedido.
À imaginação o realizar.
Ao corpo os espasmos.
Ao espírito o desencontro.
Ao sonho a emoção.
Injusto. Ele se foi assim.
Passou e abandonou,
além do nada me deu o frio.
Levou tudo,
como se tudo fosse leve como as flores.
Mas deixou as sementes
para que continuem brotando dolorosamente.
Que prazer. Cai em ventania.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Tricô
— Eu achei que você não queria mais olhar pra minha cara.
— Bobagem! Você sabe que eu não consigo guardar rancores por muito tempo... e outra, você tem esse seu jeito e pronto, não adianta. Aprendi a não te levar muito a sério.
— Babaca. Tá se achando, aposto. Mas agora é sério. Me desculpa por ter agido daquele jeito. Você estava sendo legal, seus amigos foram legais. Só que meu lado chatinha não suporta coisas legais, tive que ir embora, daquele jeito mesmo.
— Não adianta nada você falar tudo isso. Sabe que não vou com a cara da desculpa e o que foi já foi. Acabou. Sei que você é assim. Somos dois grandes babacas e teimosos – eu um pouquinho menos. E então, não vai rasgar esse embrulho feio.
— Poxa. Isso está tão feio que tô com dó de piorar ainda mais rasgando.
— O presente está dentro dessa coisa, é ele que importa. Vai logo!
— Tá bom... Nossa! Que linda! Olha, serviu certinho. Pediu pra sua mãe fazer ou comprou? Se foi ela que fez, diga que eu adorei.
— Fui eu que fiz.
— Han?
— Tive bastante tempo livre durante as últimas férias de julho. Pedi pra minha mãe e ela me ensinou a tricotar. Não é tão difícil... que foi? Não acredita em mim, ou acha que fazer tricô não é coisa de homem?
— Não, não. Quer dizer sim, não... ou sim, sim. Bem, eu acredito em você e acho que homens podem, SIM, tricotar. Obrigada mesmo, babaca.
— Acho que eu nunca vou conseguir ofender alguém com tanto carinho, nem com tanta frequência.
— Tente. Vai ver que não é tão difícil, assim como aconteceu com o tricô que você aprendeu. É mais fácil se começar com algo que você sabe que também é.
— Como assim?
— Me diz um defeito teu.
— Ah, sei lá. Acho que falo de mais às vezes - outras de menos; reclamo muito de tudo quanto é tipo de coisa, ou situação. Sou um falador.
— Ok. Só que “falador” não é insulto. Tem que ser algo correspondente e incômodo............ Já sei! Você é um grande Boca-aberta!
— HÁ-HÁ! Muito legal, hein? Não sou isso, não.
— Ah, claro que é pare de fazer charme. Então, agora é simples, comece a chamar os outros de “Ô Boca-aberta”. Mas vai com calma, no inicio diz pra quem você conhece, menos pai e mãe. Esses demoram mais pra se acostumar, mas uma hora aceitam.
— Quanta besteira. Valeu pela importante dica. Quem sabe um dia. Sentiu minha falta?
— Você sabe que eu não vou responder essa pergunta.
— Achei que dessa vez podia ser diferente.
— Por que?
— Porque esse nosso encontro é diferente. (não dentro do contexto do texto mas, para mim quando encontro alguém é preciso ser diferente, é preciso ter uma marca)
— Diferente como?
— Na verdade, ele é só meu. Ainda não decidi viajar tantos quilômetros pra falar com você e não peguei prática suficiente com a agulha pra fazer seu gorrinho roxo. Estou só idealizando, imaginando, como ele deveria acontecer, o que eu tenho que falar e o que quero ouvir.
— Quer dizer que eu sou apenas uma convidada participando dos seus sonhos?
— NÃO! Eu não estou dormindo. Estou bem acordado. Talvez sonhando acordado, ou será vivendo dormindo? Parece a mesma coisa.
— Agora você está realmente parecendo um babaca. Por que ao invés de ficar aí parado, pensando em como agir, o que dizer e o que quer ouvir, você não faz tudo isso rolar?
— É difícil... aliás, nem dá pra responder isso. Talvez essa construção toda da minha cabeça seja só mais uma daquelas idéias que a gente tem e que permanecem idéias pra sempre. Como um texto que você tem vontade de escrever e não escreve; uma opinião que tem pra dar e não dá. Nesse caso estou pensando em uma conversa bacana que quero ter contigo um dia. Porém, na verdade, está sendo eu comigo mesmo, nada de mais.
— Pelo contrário! É pelo nada de mais que você deveria começar. Durante toda essa sua viagem mentirosa você não pensou que eu realmente, quero dizer, na vida real, espero ter essa conversa com você?
— Pensei agora.
— AAHHAH! É impossível continuar essa coisa.
— Na verdade me sinto bem. Estou conseguindo me abrir, me expor, com você.
— Cara! Você ta falando com você mesmo e não comigo, entendeu?
— Eu sei, mas parece tão você falando. É como se eu soubesse exatamente todos os seus gestos, modos, as reações...
— Mas você não sabe! Você está criando tudo isso. Tudo o que eu estou sendo posso não ser.
— É, entretanto...
— Entretanto é o cacete. E aí? Você vai aprender o tricô, fazer meu presente, viajar até aqui e ter uma conversa legal comigo?
— Estou pensando em enviar pra você pelo correio.
— Babaca.
— Bobagem! Você sabe que eu não consigo guardar rancores por muito tempo... e outra, você tem esse seu jeito e pronto, não adianta. Aprendi a não te levar muito a sério.
— Babaca. Tá se achando, aposto. Mas agora é sério. Me desculpa por ter agido daquele jeito. Você estava sendo legal, seus amigos foram legais. Só que meu lado chatinha não suporta coisas legais, tive que ir embora, daquele jeito mesmo.
— Não adianta nada você falar tudo isso. Sabe que não vou com a cara da desculpa e o que foi já foi. Acabou. Sei que você é assim. Somos dois grandes babacas e teimosos – eu um pouquinho menos. E então, não vai rasgar esse embrulho feio.
— Poxa. Isso está tão feio que tô com dó de piorar ainda mais rasgando.
— O presente está dentro dessa coisa, é ele que importa. Vai logo!
— Tá bom... Nossa! Que linda! Olha, serviu certinho. Pediu pra sua mãe fazer ou comprou? Se foi ela que fez, diga que eu adorei.
— Fui eu que fiz.
— Han?
— Tive bastante tempo livre durante as últimas férias de julho. Pedi pra minha mãe e ela me ensinou a tricotar. Não é tão difícil... que foi? Não acredita em mim, ou acha que fazer tricô não é coisa de homem?
— Não, não. Quer dizer sim, não... ou sim, sim. Bem, eu acredito em você e acho que homens podem, SIM, tricotar. Obrigada mesmo, babaca.
— Acho que eu nunca vou conseguir ofender alguém com tanto carinho, nem com tanta frequência.
— Tente. Vai ver que não é tão difícil, assim como aconteceu com o tricô que você aprendeu. É mais fácil se começar com algo que você sabe que também é.
— Como assim?
— Me diz um defeito teu.
— Ah, sei lá. Acho que falo de mais às vezes - outras de menos; reclamo muito de tudo quanto é tipo de coisa, ou situação. Sou um falador.
— Ok. Só que “falador” não é insulto. Tem que ser algo correspondente e incômodo............ Já sei! Você é um grande Boca-aberta!
— HÁ-HÁ! Muito legal, hein? Não sou isso, não.
— Ah, claro que é pare de fazer charme. Então, agora é simples, comece a chamar os outros de “Ô Boca-aberta”. Mas vai com calma, no inicio diz pra quem você conhece, menos pai e mãe. Esses demoram mais pra se acostumar, mas uma hora aceitam.
— Quanta besteira. Valeu pela importante dica. Quem sabe um dia. Sentiu minha falta?
— Você sabe que eu não vou responder essa pergunta.
— Achei que dessa vez podia ser diferente.
— Por que?
— Porque esse nosso encontro é diferente. (não dentro do contexto do texto mas, para mim quando encontro alguém é preciso ser diferente, é preciso ter uma marca)
— Diferente como?
— Na verdade, ele é só meu. Ainda não decidi viajar tantos quilômetros pra falar com você e não peguei prática suficiente com a agulha pra fazer seu gorrinho roxo. Estou só idealizando, imaginando, como ele deveria acontecer, o que eu tenho que falar e o que quero ouvir.
— Quer dizer que eu sou apenas uma convidada participando dos seus sonhos?
— NÃO! Eu não estou dormindo. Estou bem acordado. Talvez sonhando acordado, ou será vivendo dormindo? Parece a mesma coisa.
— Agora você está realmente parecendo um babaca. Por que ao invés de ficar aí parado, pensando em como agir, o que dizer e o que quer ouvir, você não faz tudo isso rolar?
— É difícil... aliás, nem dá pra responder isso. Talvez essa construção toda da minha cabeça seja só mais uma daquelas idéias que a gente tem e que permanecem idéias pra sempre. Como um texto que você tem vontade de escrever e não escreve; uma opinião que tem pra dar e não dá. Nesse caso estou pensando em uma conversa bacana que quero ter contigo um dia. Porém, na verdade, está sendo eu comigo mesmo, nada de mais.
— Pelo contrário! É pelo nada de mais que você deveria começar. Durante toda essa sua viagem mentirosa você não pensou que eu realmente, quero dizer, na vida real, espero ter essa conversa com você?
— Pensei agora.
— AAHHAH! É impossível continuar essa coisa.
— Na verdade me sinto bem. Estou conseguindo me abrir, me expor, com você.
— Cara! Você ta falando com você mesmo e não comigo, entendeu?
— Eu sei, mas parece tão você falando. É como se eu soubesse exatamente todos os seus gestos, modos, as reações...
— Mas você não sabe! Você está criando tudo isso. Tudo o que eu estou sendo posso não ser.
— É, entretanto...
— Entretanto é o cacete. E aí? Você vai aprender o tricô, fazer meu presente, viajar até aqui e ter uma conversa legal comigo?
— Estou pensando em enviar pra você pelo correio.
— Babaca.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Sentido
Eles sempre me diziam em bom tom: "Sentido!"
Eu não entendia, procurava aqui e ali. Me repreendiam. Errei mais uma vez.
Por procurar, procurar e procurar e nunca encontrar?
Eu não entendia, procurava aqui e ali. Me repreendiam. Errei mais uma vez.
Por procurar, procurar e procurar e nunca encontrar?
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