terça-feira, 8 de maio de 2012

Nem de todos se faz uma Virada


Praça da República. Aproximadamente 15 minutos para as duas da tarde. Muita, muita gente - jovens, adolescentes, garotas, caras, hippies, rappers, metaleiros – lotam as ruas. Se inflamam diante do palco ou simplesmente assistem às apresentações de braços cruzados, balancê de cabeças, sentados sob uma sombra que amenize o calor.

Com uma carona garantida para as 14:30 decido não ficar até o final. “Acho que já deu pra mim”. Desço à estação do metrô. Mais fria, barulhenta e lotada do que lá fora. 

Dá pra perceber que muita gente, como eu, não mora na capital pela fila enorme da bilheteria de passagens avulsas. Tenho meu cartão “Bilhete Único”, porque a pouco tempo tinha tido minha temporada acinzentada naquela cidade. Mas prossigo na fila dos comuns por achar que seria chato recarregar só 3 reais sem ter troco.

Impossível não se contaminar com toda energia paulistana. Uma fila pode ser um cigarro ou um maço inteiro, que permite pensar na vida de modo mais amplo, tirando um pouco a atenção dos probleminhas mais triviais.

Começo a entrar numa euforia contida, numa vontade de não ir mais embora, de curtir aquilo ao meu modo, único e só, até o final. A Virada me virou. 

Saco o celular: “Fulana, vou ficar. Beleza? Beijo”. Mensagem enviada. Logo respondida. Minha carona já era.

Já que fico mais um pouco, saio da fila gigantesca que só tinha mais duas pessoas a minha frente e me decido pela recarga do bilhete. Já que eu nem sei bem pra onde vou.

Não era a primeira vez que entrava naquela estação, mas já fazia um tempo. Devido ao funcionamento de uma nova linha ela passou por reformas. Ampliaram o espaço e a confusão. Observei um fluxo contínuo e percebi que devia ser por ali. 

Ainda um pouco desnorteado, fui abordado por uma pequena senhora, acho que um metro e meio e olhe lá, mais de sessenta anos, sacolas na mão, óculos garrafais, que ela tirou ao falar comigo fazendo com que seus olhos diminuíssem sensivelmente de tamanho. Tão perdida quanto eu, ela pergunta ofegante: “Moço, você sabe de que lado é o embarque?”. Vacilando na certeza... acho que é pra cá. 

“Nossa, eles mudaram tudo aqui, tá muito diferente e tão lotado. Obrigada, viu? Agora eu já me viro”.
Penso que ousei ao dispensar a carona e para me precaver rumo antes à rodoviária pra garantir passagem. No intervalo das estações até o destino me esqueço de todo o rebuliço da superfície de São Paulo e fico imaginando, viajando, criando, quem seria aquela senhora.

Afinal de contas, para muita gente aquele era só mais um domingo. Dia de trabalho, de visitar um parente, talvez da pequena senhorinha ver o sobrinho ou uma amiga de décadas que mora no centro. E que ao chegar a hora de ir pra casa se depara com as ruas tomadas, talvez sem fazer a menor ideia do porque aquilo está acontecendo. A Virada nunca será de todos.

É bom demais poder aproveitar um pouco de tantas apresentações, ouvir tanta música, assistir espetáculos em lugares diferentes, ver tanta gente, tanta diferença, num lugar só. Mas também é valioso demais perceber que por mais diferenças que se unam, outras vão surgir, vão ficar mais a vista. 

Na madrugada, caras de sono de quem estava ‘virando’ se confundiam com o pouco descanso de quem saia cedo de casa pra lida. Barzinhos, cuja especialidade é o salgadinho do preço, lotados exibindo o último show do DVD enquanto do outro lado da rua um palco vibra ao vivo. Gente apressada para não perder a sua atração principal, gente querendo garantir a passagem de volta, a fuga do Acabou, e senhorinhas domingueiras que só querem chegar logo em casa na tarde de domingo.

Eu espero que ela tenha conseguido embarcar com tranquilidade, que muitos tenham conseguido assistir ao show preferido, que vários folguem na segunda pra compensar a rotina malfadada e que haja a diferença pra se fazer observar. Que isso nunca acabe.

me diz do fim


Só me diz que esse dia tem um fim. Que nem todo o dia será assim.
Era pra ser uma historinha boba, dessas sem pé nem cabeça, algo inventado. Construído por acaso. Que isso desabe agora não é justo. Te engrandeço, alimento, não consumo. Você toma conta de tudo, me domina e não diz que não, nem que sim. Teu não é o silêncio, forma pura e triste de quem amou para quem ama.
Só me diz que além do dia todo o resto, o mundo inteiro terá um fim.
Se não é pra me deixar levar. Se antes de tudo acabar eu não saltar e fugir. Me segura na mão, me dê um oi, fala que sim. Atravessa essa estação, deixa a porta se abrir. E fechar só quando a casa estiver cheia de mim.

sábado, 14 de abril de 2012

O pé de virgem

Essa é a capacidade que contém.

Ver a parte, a mínima, talvez a mais bela, mas de qualquer maneira cego ao todo.

Te ver em filme, memória, sinapses incontroláveis de torpor, prazer, amor e agonia.

Imaginar o corpo: a mão, o umbigo sonoro, o lábio úmido, a pele branca, arrepiada e disposta, e a maciez do seio.

Sobre mim, sem peso.

Ao encaixe nosso de raras noites que nos demos.

Sem o penso, só o sinto. Sinto pelas palavras, sinto pelo momento retrógrado, pela ferida, punhalada, que te atravessou o peito.

É sempre, em mim, graciosa-amada-de-sensível-zelo.

Continuai.

Zela por mim em teu silêncio. Zelo por ti no meu tormento, prazeroso.

Dúbio. Sincero.

Por mim te amo. Por vós, em plural, te pisoteio.

domingo, 25 de dezembro de 2011

25-12-2011

Atônito. Não era vão era bem esse adjetivo que julgava mais adequado para se alto definir. Mas lá estava, inerte no sofá. Ao contrário apenas os olhos, atentos ao cristal líquido. Um dia especial, um aniversário de dois mil pra lá anos, uma reunião, um.. uma, união.
Como se unido ao sofá, como se unido ao computador, se unido aos móveis, às almas, ao espírito? Se unia ao vácuo. Se unia apenas a noite, ao som. Mais uma vez, não se unia. Era bom, dizia. Não é a primeira vez... me acostumei... não tiveram o costume. Se apegava com afeto pela sua própria solidão, a defendia não como direito, mas como dever.
Só que neste dia não. Finalmente um dia especial. Queria alguém alí, ao lado, aos olhos, ouvidos, tato, colo. O mundo dentro se transformara. Queria ter presença constatada. Registro. Troca. Alí, agora, já; Queria! Que, que, que, quem?

domingo, 4 de dezembro de 2011

Como você

Assim como você, eu senti o peso dessa relação e sua leveza.
Assim como você, eu não sei mais me despedir.
Assim como você, eu não sei terminar, encerrar tudo o que eu te disse.
Assim como você, eu não sei ao certo porque ainda faço isso.
Assim como você, eu sinto a sua falta.
Assim como você, te quero bem, mas não sei se pra mim é bom esse querer.
Assim como você, eu estou temendo minha nova rotina.
Assim como você, eu digo que há saudade.
E medo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

"um orgasmo pra canção,
um refrão pra oração,
um amém para o tesão:
eu tô falando de sexo, música e religião"

Wander Bêh

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Grandes Olhos

Olhos,
prometo tudo
no começo,
não tenham medo.
Prometo não ser
mais que um momento;
sem culpa, arrependimento;
garanto que tempo certo
não há;
Há espaço, olhos
para todas as cores,
tesouros, amores.
Mas dói
sei que dói
ser dois.
Te peço, só,
agora.
Não sei quanto fico,
meus olhos vão embora.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conjugação diarréica

Fezes minhas as suas palavras
Fezes suas as minhas palavras
Fezes nossas as nossas palavras
Fezes minhas as minhas palavras.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Carta a uma confusão

Querida,

Eu tenho tanta coisa pra dizer, mas eu não quero. Você não sabe de nada, você só supõe e acredita nisso. Vê se me esquece. Esquece tudo o que você acha que é, que sou, os significados trágico de todas as nossas insignificâncias. Lembre apenas de mim. Não fale mais sobre o que é o amor, você já até acabou se confundindo, percebeu? Não dá mais pra dizer das coisas que eu deixei nas minhas caixas empoeiradas ou que pensa que ainda nem tirei daqui de dentro. Suas fugas rápidas são tão ligadas ao passado quanto acha que são as minhas. Parece rancoroso, mas eu sabia que você era assim, só acho que não precisa mais disso. Quem sou eu? Vá, sim. Se esqueça disso tudo, esqueça que algum dia tivemos algo a dizer. Realmente, pare. Desista de tentar entender meu silêncio. Volte para aqueles braços, você pode até escolher. É uma pena. Eu não tenho mais nada a ver com isso. Só não deixo de sentir. Não ando fazendo muito esforço. Preciso, viu? Vá viajar, vá rever, vá passar uns dias. Deixe a mudinha de ódio pra traz, deixe isso morrer, por favor. Vou tentar não atrapalhar, eu juro. Só não pense que vou me esquecer ou que esqueci, ou que eu não sei do que estou falando. Como tudo isso parece tão óbvio! Até discutimos por causa de nossos deslizes do passado uma vez. Quer dizer, meu deslize. O que ainda tem aí... não faço idéia. Aproveite. Só não venha me contar. Eu já ando sabendo demais e o que eu quero mesmo é nem saber. Só espero que o Dylan esteja certo. “The answer, my friend, is blowin' in the wind”. E se estiver ao vento eu sei que ela chegará aqui primeiro. “The answer is blowin' in the wind”. Não sei por que. É em tempo assim que não acho um nome pra você. Ah, graças a algum deus, eu me sinto louco!

Com sentimentos antagônicos,

Eu.

P.S.: Eu sempre terei coisas pra dizer. Você não vai ouvir.

Pénu

Hoje me vi de pés descalços no escuro. Era a raiz de um arrepio. Tão estranho ver os próprios pés assim, minha própria pele e só, alguns pelos esparsos e nada mais. Pra mim foi simbolo, mas de tanta coisa que por aqui me perco, difícil de explicar - nem isso - de dizer. Mas é que deu saudade de um par. Da escalada de outros dedos, da pequena guerra entre dedões que poderiam se dizer os generais a conquistar um território vasto - o pé inteiro. De deixar hora o pé em cima, hora o pé embaixo, sempre de outro pé que não é o meu. A que pé chegamos. Que pé é esse que me deixa todo bobo, encabulado comigo mesmo, com vontade de gritar, de escrever tolices sobre pés. Ah, que pé.

Não se zangue

Meu amor, "fala baixo senão eu grito". E esse grito poderia ser sua última indesejada surpresa. Ele pode os seus ouvidos ensurdecer para o som da minha voz. Meu amor, não peça explicação. O meu amor é em conta-gotas. Se em contato com seus olhos te lava a alma em abundância. Não tem prazo de validade, vale para qualquer espírito não perecível. Ele é despertador, meu amor, já não precisa mais dormir se o que você precisa de verdade é sonhar. Meu amor, não se zangue. Mas meu amor não é como o seu.
Meu amor,
não te fiz uma canção.
Sem ritmo,
nem aqui acerto a pontuação.
Não tem rima ou verso,
cadência ou harmonia.
Nosso amor não é
levada ou poesia.
Meu amor, é travessão —
Meu amor, te convido. Vem comigo conhecer tudo o que esse amor me deu. Só tome cuidado pra não cair em erro, pensar que é algo teu. Meu amor, sem essa de meu.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Meu amor,
não te fiz uma canção.
Sem ritmo,
nem aqui acerto a pontuação.
Não tem rima ou verso,
cadência ou harmonia.
Nosso amor não é
levada ou poesia.
Meu amor, é travessão —

domingo, 26 de junho de 2011

Movimento I - único

Ando afim

de correr atrás

duma pequena libertação

de ideias antiliberais

Tem gente aí

sem rumo e paz

que traz em si

tudo o que é capaz

Penso em mim

em pedalar

deixar fluir

meu retorno ao lar

Lar?

Paz?

Atrás?


Regurgitofagiei...ei; ei

sábado, 28 de maio de 2011

Devaneios de um Motorista qualquer

“Dá logo a partida. Bota essa chave no contato, sente o motor roncar”, penso. Seguro a maldita chave enquanto olho pra estrada. Essa estrada que parece que não acaba nunca. Talvez não acabe mesmo. Quando parece que vai acabar surge uma bifurcação, e sempre pego o caminho mais longo. Já perdi a noção de quando peguei esse carro. Agora acho que é mais meu do que do seu verdadeiro dono. “Enfia logo a porra da chave no contato, cara! Quanto mais pensa, mais demora. E lerdeza é algo que não combina contigo, chapa”. Tu sabe correr, tu sabe bem. É, provavelmente, a única coisa que sabe fazer direito mesmo. Corre desembestado, corre como se valesse a vida. Pisa no acelerador como se fosse a última coisa que fosse fazer nessa terra que não acaba nunca. Vale a vida mesmo? Vida. Ficar pensando na vida é pra quem tem tempo. Tempo e algo que dê valor a isso. “De que adianta ficar parado pensando na vida se só sei correr, se só isso ainda te faz sentir alguma coisa, maldito?”. Dou um gole no Bourbon, pra ver se surge alguma coragem nessa carcaça vazia. Dou outro. Que nem homem! Chega, vou fumar um cigarro.
“Não coloca nem a chave no contato, e ainda sai pra fumar. Você é ridículo”. Nem isso consigo fazer: fumar dentro do carro. Fumo faz tanto tempo, o cheiro não incomoda, mas não consigo fumar dentro do carro. Ela não gostava do cheiro, claro. Menina doida, por que ainda lembro dela? Ela e aqueles moleques malucos. Corriam feito o diabo, quase tanto quanto eu. Mas e daí que ela não gostava do cheiro, faz tanto tempo. Por onde ela anda? Talvez tenha amarrado seus burros em algum lugar. Ou em alguém. “Teve mais culhão que você! E ainda achou que ela ia ficar contigo… falando que ‘iam fugir pra algum lugar, que iam esquecer daquele racha estúpido’”. Patético, ela nunca fugiria comigo. Ela sabe do que foge, sonha pra onde corre, deseja o que procura. Pode até não achar, mas sabe muito melhor do que eu. “Você só sabe correr. Dá outro gole. Acende seu cigarro”. Só sei correr, não sei sentir. Corro, meu deus, corro. “Sai da porra do lugar, corre.”
*Coloca a chave na ignição, dá a partida*

Post do comparsa Caio de Freitas Paes, do HQ Subversiva

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mais uma noite

O comprimento das cobertas não servia para dobrar um pedacinho sob os pés cansados, como ele sempre gostava de fazer. Não tinha outra opção. Levou consigo apenas aquilo que deu para carregar. Nunca imaginou que o frio poderia ser tão intenso, cruel, solitário. Sorte ter conseguido emprestado um edredon florido e um pouco poento, mas que cumpria bem a função de aquecê-lo por fora e ainda o fazia recordar outros abrigos que às vezes o faziam acender uma fagulha no coração. Tudo o que queria era dormir um pouco mais - na verdade, pensou em virar a noite toda a espera de quem não o esperava e dele estava fugitiva -, queria aproveitar a falta do que fazer, de compromisso, de se estar em si para o que fosse. Decidiu sonhar. E conseguiu.

Sob a luz incandecente de um apartamento que já nem sabia se era o seu, ela não pensava nele, já há tanto tempo percebeu que era melhor esquecê-lo que sua alma e corpo decidiram atendê-la. Às vezes ainda sobrevinham algumas ondas de mágoas e tristezas, mas uma pequenina dose de raiva era administrada para a salvação, para que não se perdesse numa tentativa de resgatar o passado. Não nasceu pra ficar só, se arranjava como podia e em alguns casos obtia sucesso. Talvez fosse o caso. Não sabia bem o porque, no entanto estava acreditando em um novo alguém ao seu lado. Momento, lugar, dor e riso - tudo colaborava. Só, não, alguma lembrança embassada, porém nem conseguia mais distinguir de quê e isso a acalmava. A trazia de volta ao presente, às poesias e à companhia. Só temia o sono, a hora da solidão. Não sabia ao certo se o que seu coração fazia era dar nós frios ou afrouxá-los, o que fosse já não a enfraquecia.

Sonhava com as promessas. Ainda que tivesse a certeza de serem impossíveis, de terem sido feitas de forma impensada, somente para acalma-lo e deixar que se afastasse menos triste, recaia sobre a crença em seu amor. Acima de tudo, sempre acreditou em seu amor. Esperava que ela aparecesse no dia marcado, na celebração, que ao seu lado sorrisse solta e cantasse em seu ouvido com a voz doce e trêmula de quem ama feliz ou triste, mas ama. Sonhava com os cabelos dela a coçar-lhe o nariz por tê-la com a cabeça descansando em seu peito calmo e acolhedor. Sonhou com o êxtase do último gozo, na noite virada da despedida - esse era um sonho dentro do sonho, pois já sabia que o fim de tudo viria através de um ato tão criacionista quanto o sexo. Por fim, sonhou uma conversa. Um estar lado a lado tão simples e tão deles. Sentia-se incomodado por senti-la incomodada por ele. A perguntava sobre o que estava acontecendo, o que seria do futuro, esqueceu do passado? Não sabia muito bem se esquecer-se disso era algo bom ou ruim, mas devia ser desejado. Viu que todo o onirismo queria como fim aquela resposta. Uma resposta propriamente sua. Não era ela que ia responder. Ela só estava no sonho. Na mente a toda hora, em seu peito a querer partir e ele não concordar. Acordou.

Insônia a contaminava, não de todo ruim. A deixava mais ativa até. Dava mais tempos aos seus textos e poemas, às companhias, às suas trocas com a razão. Pensava que, afinal, foi mais um dia que simplesmente acabou. Não era tão ruim assim. Livre, solta, sua. Gostou. Não se preocupava mais com promessas, ao contrário do ex-amante, tinha o espírito leve daqueles que cumprem sua parte. Só não tinha muita certeza se havia deixado clara a eternidade da sua decisão. Sim, havia. Não através só das próprias palavras, mas das músicas e das rememorações - ritual de passagem para o novo. Tinha em si a certeza de que ia suportar, de que manter a distância já não era algo tão dificil, era desejavel. Quem sabe até isso seja pra sempre? Pensava sem muito alarde. Sem suspiros, sem tantas lágrimas, com um silêncio. Agora era ela. Era outra. É nova, viva. Não se importa com quem não se importou e nem deveria. Viu que quem sempre esteve ao seu lado foi a solidão dela mesma e que talvez a satisfizesse assim. Não quer mais visitas, não quer mais voltas, não interessa muito o que sentem ou pensam. Me interesso mais por mim, sou minha novamente, minhas recordações já foram tiradas e guardadas. Adormeceu.

domingo, 22 de maio de 2011

Não demora, é capaz
de tudo parecer tão besta
das fotos se encherem de poeira
dos sofrimentos virarem lembranças

Não demoro, percebo que tive tudo
que não há mais o que querer
que a vida se coloriu e me esqueceu
que cometo loucuras e vejo que é tudo que querias
(até menos)

Não demore, e vamos caminhar juntos
saberemos mais de nós estando com os nós soltos
Não demore, a verdade que acompanha o amor é frágil
eterna, mas transparente, talvez imperceptível
Não demore, porque não há pontos finais
em nada do que é nosso. Esse ponto,
não demora, vai ser só um acidente

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Despertei ao pôr-do-sol como havia feito nos últimos dias. Sem sonhar, me descobri apenas do pescoço à cintura - percebi que estava muito frio. Aquele carinho que me agarrava para não sair nunca mais da cama não aconteceu. Senti que fora uma noite inteira insone. Que apesar do tempo ter passado no escuro minha alma estava em claro o tempo todo. Sem o seio em minha mão não é mais possível dormir. Sem a preocupação do amor em me acompanhar ao revirar sobre a cama sou apenas apenas alguém que dorme, não sou mais nada. Estou sozinho, e do que mais sinto falta é do teu seio, macio, quente, meu, só seu. Deixei meu cheiro, um punhado de pelos, algumas feridas e um grande amor. Minha alma, como antes, anda dividida.

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Você não sabe, mas roubei uma foto sua.
Ouve comigo?

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Amor, deles

Já faz mais ou menos uns dois anos. Ele mantinha o velho medo, um receio, algo que o privava de si mesmo, de uma parte sua tão grande e tão quente, por dois anos. Na sua cabeça havia uma lista de coisas, de traços, características, que ele devia procurar numa outra pessoa - estava rendido a ilusão de que só alguém parecido com o passado poderia lhe devolver o que foi tirado, ou melhor o que ele tinha decidido dar, ninguém nunca pediu nada, fez porque quis, porque era o seu jeito, ou falta de.
Nada durava muito. Tudo em vão. Até que encontrou alguém que não se parecia tanto, mas sentiu que era ela. A salvação, o remédio, a própria cura, a volta. Mentira. Mas quando percebeu já estava envolvido demais, queria fugir, continuar olhando para sua lista e buscar o passado. Acabou mantendo. Ficando. Se acomodando. Sabia que não estava certo, que não devia fazer isso com alguém, nem com ele mesmo - talvez fosse pior para ele mesmo. Era frio. Controlado. Um pouco egoísta.
Sua sorte foi que ela não o abandonou, não o temeu. Ela sabia que só ia vencê-lo se entregando, mais que isso, ela tinha certeza que havia alguém ali, um outro ali, que ele não era ele, que ele precisava dele. Encarou aquilo como uma missão. Estava tudo em suas mão, ela sabia desde o inicio. A fragilidade era dele. Medo, dele. Fuga, dele. Desespero, dele. Ela, dela. Amor, deles.
Difícil. A vontade era de, com uma broca, perfurar aquele peito e voltá-lo a vida novamente. Entrar naqueles olhos e entender o que se passou, encontrar um mapa para o que fora escondido. Paciência. Ela estava indo bem, tava mandando ver bonito! Ela sabia.
Ele passível, passível, passava pelo tempo como se o próprio tempo fosse ele.
Ela sempre acima, tudo sob controle. Se conseguisse trazê-lo de volta, pronto. Ele seria dela. Han? Dela? Não! Erro. Ele devia ser dele. Ela se enganou, ela não percebeu. Ela se acabava assim. Ela se dava. Ela se esquecia de si. Não, assim não! Desmoronava. Uma coisa tão bonita, uma dedicação tão pura. Ela ia sumindo. E só ia sobrando ele, quer dizer, aquela parte dele.
Ela não podia mais. Não dá mais. Percebeu que dela pouco sobrava, com ela ele pouco se importava. Se deixou levar. E levaram.
Outra vez? Mais isso agora? Mais de mim vai embora? Ele se perguntava. Se dando conta de que NÂO! Mais dele estava voltando, chegando, de que era sua vez. Ele tinha que fazer alguma coisa, ele podia, devia, fazer alguma coisa, porra!
Era ela, e não é mais. Não era ele, mas agora é. Ele é dele e ela é dela. E deles...

terça-feira, 3 de maio de 2011

Frestas ínfimas

Gestos acrobatas eram feitos como coreografia entre quatro paredes mal iluminadas. O cheiro dos corpos e seus fluidos se confundiam apenas com o cheiro da chuva que agora já caia mansa. Como se numa dança em que os ritmos de condução pudessem variar cada vez mais rápido, os dois se tornavam um. Da parte posterior das coxas dela começava a escorrer pequeníssimas gotas de suor. Esquecida dentro do armário: uma caixa intacta cheia de camisinhas. Eles não se importavam mais, não queriam saber dos perigos desse mundo, de doenças e desgraças, de acasos e estatísticas. Se fosse para morrer que fosse totalmente pelo outro. Os amantes sabem que dar um pouquinho da vida ao outro é morrer um pouquinho mais para si mesmo. É , talvez, garantir que terão um pouco mais de tempo juntos na eternidade. Eles estavam ali para isso dar um pedacinho de sua vida ao outro. O calor aumentava aos poucos e o prazer se multiplicava aos gemidos - até mesmo aos contidos. Era possível definir um pouco mais a cada minuto as linhas dos corpos de cada um que passavam a brilhar contra a luz do terceiro ou quarto dia de lua cheia que entrava pela porta aberta da varanda. Somente o que se via com perfeição eram os olhos, mas não eles propriamente ditos. Mesmo quando se fechavam, estes espelhos, jorravam luz e significados pelas frestas ínfimas entre os cílios - quatro grandes pares de cílios. Nas mentes desses amantes, já não havia mais tempo, passado, futuro e nem agora. O tempo era totalmente indigno daquele momento, rejeitado. Era uma outra coisa, menos o tempo. O desejo não era chegar ao ápice, era prolongar o amor, gera-lo. Depois dali viria a despedida, algum dia, escassez, deserto. Era preciso garantir o alimento. Com os corpos em repouso, um sobre o outro, tentavam fazer o possível para que o maior espaço possível de pele fosse revestida por outra pele, a fim de se identificarem com suas próprias almas. Que agora tinham seu momento e visto que não temiam mais a solidão e outros medos.

domingo, 1 de maio de 2011

-

Os amantes sabem que dar um pouquinho da vida ao outro é morrer um pouquinho mais para si mesmo. É , talvez, garantir que terão um pouco mais de tempo juntos na eternidade.



Te criei grande dentro de mim
Te fiz maior que o mundo
E o meu mundo sou eu
Se eu pude te dar asas
Não pude te ensinar a voar
Eu nunca soube me lançar aos ares
Sempre disse que iria, mas nunca sozinho.
Agora sou como bronze moldado
Não sirvo para ser observado
Só passo os dias observando eles passarem.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Embaço

Como de costume estava de costas para o chuveiro. Prefiro sentir a água quente iniciar seu deslizar da minha nuca - relaxa e parece levar consigo alguma carga, um peso que não se vê. Tinha acabado de iniciar o ritual, nem houvera tempo da névoa de vapor tomar conta dos espelhos e do vidro esverdeado do box quando senti que meus olhos se tornavam mais quentes e úmidos, embaçando minha vista e salgando minha boca. Não é fácil se dar conta da própria fraqueza, há sempre um receio bobo de ser apanhado, de ter que dar explicações ou de simplesmente ter a certeza de que se está sozinho e ninguém ouviu nada e não se importa. Apesar de tudo, é tão bom ter sentido um fluxo partindo de dentro, como se as gotas encanadas que esperavam ansiosas pela mão que gira a torneira estivessem contentes e chamassem as gotinhas preguiçosas, que repousavam com meus pesadelos em alguma mucosa apertada e escura, para celebrar a via crúcis prazerosa pelo corpo. Me dei conta de que os olhos há tempos clamavam pela nova fertilização. O verde, há muito, deixava-se invadir pelas bordas amareladas de secura. Sabia bem o motivo - talvez, apenas uma banal colocação de um pronome mal-colocado no plural, somado a tudo - que desencadeou a celebração aquosa do momento e me aproveitei dele o máximo que pude para não fechar as comportas da represa. Me agachei. Me desestabilizei. Era o chão. Ele me chamava, como faz com quem quer acreditar na impossível fuga. Me curou. Não podia ficar ali, era hora de levantar, hora de terminar com tudo, encerrar o rito. Voltar ao dia cinza, conter de volta o que não aproveitara a chance de sair, até que novo padecimento se aproximasse. Talvez não demore muito. Preferiria como fato cotidiano, porém, correria o risco de me acostumar, torna-lo trivial. Nada até aqui foi assim, tudo o que a por vir não será - assim espero. Espero que o tempo corra, mas que me dê um pouco mais de si. Ah, tempo, amigo ciumento, que não aceita ser ignorado, como eu, mas ignora aqueles que ainda se lembram que você estará em qualquer lugar, sempre. É a sua condenação. Meus últimos gemidos, minhas últimas angústias, meus profundos suspiros, pequena paz que vem e toma conta. Eu aceito. Por enquanto.